Encontros na Villa Conceição

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ENCONTROS       Zé Nogueira & Arthur Dutra

Primeiro disco do duo formado pelo compositor e vibrafonista Arthur Dutra e pelo saxofonista Zé Nogueira, “Encontros” (MP,B/Som Livre) permite muitas associações. E promove mais encontros, de gerações, culturas e com outros instrumentistas que também têm a música sem limites como foco. Ao lado da dupla, o contrabaixista Bruno Aguilar completa a formação de trio que gravou todo o álbum, com pontuais participações especiais. São 11 (longas e viajantes) faixas, quatro delas com três convidados que se alternam: Guinga (voz), Lorrah Cortesi (voz) e Marcos Suzano (percussão).

Agora registrado no estúdio, o encontro de Zé e Arthur vem desde 2009. Foi nesse ano que, no momento de levar para os palcos “Carta de Pedra (A música de Guinga)” – seu segundo CD, creditado ao Zé Nogueira Quinteto -, o saxofonista saiu atrás de um vibrafonista para substituir o requisitadíssimo (também pianista, tecladista, arranjador e produtor) Jota Moraes que participara das gravações. Perto de desistir, já pensando em trocar o som “aquoso” daquele instrumento percussivo e harmônico pelo de um Fender Rhodes, Nogueira soube da existência de Arthur. Desde então, os dois não se desgrudaram e, em meio aos seus outros trabalhos, desenvolveram a música que agora chega aos nossos ouvidos e mentes.

Além de músicos, técnicos, instrumentos e repertório envolvidos, a sonoridade de “Encontros” deve muito à sua captação nas salas acústicas do estúdio Villa Conceição. Numa casa centenária na Glória, o local também tem abrigado saraus e será o estúdio utilizado nos projetos futuros de Zé Nogueira e Arthur Dutra.

Produzido pelos dois, com produção executiva de João Mário Linhares, o disco foi gravado por Duda Mello (que depois também mixou o material no Rockit! Estúdios) e Thiago Kropf, montado por Marcio Gama e masterizado por Carlos Freitas (Classic Masters, SP).

Quatro das 11 faixas têm o subtítulo “Encontro”. Elas vieram de uma série de dez temas que Arthur Dutra escreveu durante uma residência artística em Paris, entre 2012 e 2013. As selecionadas para o CD têm como inspiração o diálogo do vibrafone com o sax de Zé Nogueira: “Jogo de espelhos (Encontro IX”), que abre o disco, com participação especial de Marcos Suzano na percussão; “Samba dos Outros (Encontro VII)”; “Adorno na Praça Paris (Encontro IV)”; e, fechando o repertório, “Infância das cores (Encontro V)”. Arthur também é o autor de “Carne de Sol e Flor de Lótus”, que fez parte de seu terceiro disco solo, “A musa de Benjamin & outros ensaios” (2014), e, agora, volta cantada pelo baixista Bruno Aguilar.

Dois compositores brasileiros têm vez no disco. Tom Jobim, o maestro soberano, inspiração tanto para o saxofonista quanto para o vibrafonista, pode ser ouvido nas impressionistas “Nuvens douradas” e “Modinha” (esta, colada a um tema de Heitor Villa-Lobos, “Veleiros”). Enquanto Guinga, outra referência fundamental para ambos, dá as caras em “Lendas brasileiras” (na qual também canta) e “Nó na garganta”.

O repertório ainda inclui encontros com as obras de dois representantes do jazz contemporâneo. O francês Didier Malherbe (saxofonista, flautista e tocador de duduk, que liderou o grupo Gong e mantém o Hadouk) assina “Nambarai”, que foi gravada com os vocalises da franco-brasileira Lorrah Cortesi. Já o tunisiano Anouar Brahem é o autor de “Dance with waves”, outra com participação de Suzano. Nessas duas faixas, Zé Nogueira também toca duduk, um milenar e rústico instrumento de sopro usado no Leste Europeu, no Oriente Médio e no Norte de África.

A dupla

Aos 60 anos, o instrumentista, produtor de discos e curador de festivais de jazz Zé Nogueira faz música desde o fim da década de 1970. Ele já lançou dois discos solo instrumentais, o primeiro, “Disfarça e chora”, saiu em 1996; o segundo é o já citado tributo a Guinga, “Carta de Pedra”. Nas últimas quatro décadas, tocou ao vivo e gravou com os principais artistas da MPB e do instrumental, incluindo nomes como Chico Buarque, Djavan, Edu Lobo, Guinga, Boca Livre, Moacir Santos, Ney Matogrosso, Leandro Braga, Cristóvão Bastos, Tim Maia, Toninho Horta, Erasmo Carlos, Zizi Possi… Como produtor, entre os títulos que Nogueira assinou estão “Delírio tropical” (de Guinga, em 1993), “O cair da tarde” (de Ney Matogrosso, em 1997, coprodução de João Mário Linhares) e, este em parceria com Mario Adnet, com quem também dividiu os arranjos, “Ouro negro” (o álbum duplo, depois concerto e DVD, que em 2001 revelou ao Brasil e ao mundo a grandeza da obra de Moacir Santos).

A ligação de Zé com o maestro, compositor, saxofonista, professor pernambucano, morto aos 80 anos, em 2006, em Los Angeles, onde vivia desde meados dos anos 1960, merece um parágrafo à parte. No fim dos anos 1970, época em que lojas de disco eram uma fonte para descobertas além da música comercial, Zé esbarrou no álbum “Carnival of Spirits” (lançado em 1976 pelo selo Blue Note) e ficou vidrado na obra de Moacir que até então desconhecia. Em 1982, no grupo de Djavan, Zé Nogueira foi um dos responsáveis, junto ao produtor Paulinho Albuquerque, pelo convite para Moacir participar do disco “Luz”, gravado em Los Angeles. Três anos depois, como um dos curadores do então estreante Free Jazz Festival (evento que, quatro décadas e alguns patrocinadores e nomes depois, prossegue como o brasiljazzfest), Zé Nogueira trouxe Moacir Santos de volta aos palcos do Rio e de São Paulo.

Arthur Dutra, 38 anos, também formado em Ciências Sociais, com mestrado em Filosofia, se iniciou na música como baterista e, em 1999, lançou seu primeiro disco, “Projeto Timbatu”. Entre 2002 e 2006, estudou em Nova York com, entre outros, Mike Mainieri, vibrafonista que despontou no jazz fusion e virou referência para o instrumento. Pouco comum na música popular brasileira, o vibrafone seria usado por Arthur principalmente como uma ferramenta para a composição. Mas, após voltar ao Brasil, não pararam os convites para ele, que participou como vibrafonista em shows ou discos de, entre outros, Silvia Machete, Roberta Sá, Fátima Guedes, Moska, Lenine, Cristina Braga, Erasmo Carlos, Adriana Maciel…

Desde então, também lançou, em 2014, os CDs solo “A musa de Benjamin & outros ensaios” e “O tempo do encontro” (ambos com participação de Zé Nogueira em algumas faixas) e o livro “Arte D’Encarte”.

Nessa coleção de ensaios, que funciona como filosófica e espirituosa bula para seus dois últimos discos, Arthur deu voz a Benedix, o personagem que está de volta no texto do encarte de “Encontros”. Nele, encontramos o conselho que replico aqui: “Faça como Guinga, procure na música, vá ao infinito”.

 

Antônio Carlos Miguel